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terça-feira, janeiro 31, 2012

liberdade


Boris Vian



Sobre o umbral da tua morada
Sobre o assoalho reluzente
Sobre a caixa do piano
Escrevo teu nome

Sobre o primeiro degrau
Sobre o segundo e os outros
Sobre a porta do teu lar
Escrevo teu nome

Sobre as paredes do quarto
Sobre o papel viperino
Sobre a lareira de cinzas
Escrevo teu nome

Sobre a almofada os lençóis
Sobre esse colchão de lã
Sobre o travesseiro gasto
Escrevo teu nome

Sobre o rosto concentrado
Sobre as narinas abertas
Sobre os dois seios agudos
Escrevo teu nome

Sobre teu ventre de escudo
Sobre tuas coxas abertas
Teu mistério corrediço
Escrevo teu nome

Eu vim no meio da noite
Vim rabiscar tudo isso
Vim em busca de teu nome
Escrevê-lo
Com esperma.

Boris Vian, Escritos Pornográficos,
tradução de Heloísa Jahn

terça-feira, janeiro 03, 2012

les noms d'Oran - extrait


Debout devant les lions, de vrais lions de fonte éternelle ou bien c’était de bronze, entre les palmiers, avec à ma droite le Théatremunicipal et à ma gauche la Pharmacidurgence flanquée des deux grottes où cuvent les liqueurs et les métamorphoses j’eus toujours cette sensation singulière de venir-d’arriver. J’étais la voyageuse de passage dans une ville-maison-théâtre; aucun séjournement aucune répétition, nulle durée, n’atténuèrent jamais l’acuité  de mon abordement. Je fus toujours debout devant entre sur le pas d’un pays étranger le mien, à cause de tous ces mots-noms, cette faune, que je ne savais pas coucher sur le papier et qui m’enveloppait de forêts transparentes sonores. Oran fut toujours le livre avant l’écriture, tout prenait mot, et le mot était nom et les noms étaient les pièces précieuses d’une mosaïque mobile que je rassemblais et disposais sans cesse en combinaisons  nouvelles, comme à la plage je recueillais des nacres auxquelles je vouais un culte nombreux et précis.
    
Ce qui faisait le charme ensorcelant de cette bijouterie c’est que j’ignorais tout de la transcription. La langue qu’on ne sait pas écrire a une autorité magique. C’est elle qui me parlait, et à ses mots je voyageais. Je vivais dans un dictionnaire illustré vivant où le mot “cyclorameur” venait se poser à côté du mot “araucaria” et du mot “créponné” pour former des ensembles d’éléments intensément érotiques par contiguités incongrues et compatibles. (...) Ainsi vivais-je dans le sein d’Oran, baignant dans une dissémination de signifiants qui me bercaient et bouleversaient le coeur, j’étais dans cette langue intangible dans sa totalité fuyante rassemblée et que jamais je ne pus tenir dans ma bouche.

Ce n’était pas du français.

(Texte d'Hélène Cixous, Les Noms d'Oran)


 Hélène Cixous, par Martina Hynan



Diante dos leões, de verdadeiros leões de fonte eterna ou talvez fossem de bronze, entre as palmeiras, tendo à minha direita o Teatromunicipal e à minha esquerda a Farmácia-24-horas flanqueada por duas grutas onde repousam os licores e as metamorfoses, eu sempre tive esta sensação singular de acabar-de-chegar. Eu era a viajante de passagem em uma cidade-casa-teatro: nenhuma permanência nenhuma repetição, nenhuma duração, jamais atenuariam a acuidade de minha abordagem. Eu sempre estive de pé diante entre no patamar de um país estrangeiro o meu, por causa de todas essas palavras-nomes, esta fauna, que eu não sabia colocar no papel e que me envolvia em florestas transparentes sonoras. Oran foi sempre o livro antes da escritura, tudo tomava palavra, e a palavra era nome e os nomes eram peças preciosas de um mosaico móvel que eu reunia e dispunha sem cessar em combinações novas, do mesmo modo como na praia eu recolhia as madrepérolas às quais eu devotava um culto numeroso e preciso.

O que dava um charme enfeitiçante a esta bijuteria  é que eu ignorava  tudo da transcrição. A língua que não se sabe escrever tem uma autoridade mágica. Era ela que me falava, e em suas palavras eu viajava. Eu vivia em um dicionário ilustrado vivo onde a palavra “pedalinho” vinha se postar ao lado da palavra “araucária” e da palavra “creponar” para formar conjuntos de elementos intensamente eróticos por contiguidades incongruentes e compatíveis (...) Assim vivia eu no seio de Oran, banhando-me em uma disseminação de significantes que me embalavam e transtornavam o coração, eu era nesta língua intangível na sua totalidade fugidia reunida e que jamais pude manter na minha boca.

Não era francês. 

(Tradução de Patricia Smaniotto) 


H.C., par Jean-Marie Banier

segunda-feira, janeiro 02, 2012

os sonhos chegaram

 
 


Os sonhos chegaram. Ainda estrangeiros. Eu levei um tempo para acolhê-los. No começo eu os expulsava. No entanto são trabalhadores altamente qualificados. Mas eu temia fazer trabalhar os intrusos no escuro. É fácil demais. A gente dorme, a gente é salva, durante este tempo os anões mágicos contam as mil e uma noites. Quando eu comecei a cuidar deles tinha consciência de uma fraude enorme. Não sei em que momento me parecia roubar os tesouros. Eu era proprietária de uma mina, mas o que é que isso quer dizer proprietária quando se usufrui de um bem nem adquirido nem herdado? Eu sou proprietária de potências-outras que eu não controlo, que não me obedecem, eu tenho um exército de cavalos selvagens. Eu partilho com eles a fantasia dos direitos autorais. A bem dizer, eu os nutro. Minhas paixões, minhas tempestades minhas crises de cólera ou de desespero eis suas fontes e seus alimentos. Com frequência eles me dão uma mão quando escrevo. Às vezes um pontapé. Se estou cansada, monto num sonho, o primeiro que passa. Todas as construções, cenários fabulosos mobiliários e imobiliários, são eles. Eles têm toda a força e o humor que eu não tenho. Será que usei neste texto os serviços de um sonho? Eu podia mentir para vocês.
 
Entre os sonhos e eu acontece assim: eu os "escrevo" ou melhor anoto tão precisamente quanto for possível suas minuciosas aventuras. É uma arte e uma disciplina. Eu falarei disso uma outra vez. Do lado deles eles me escrevem. E eles me escrevem. Eles me escrevem cartas do meu estrangeiro. Eles me dão notícias de mim. Estas notícias trazem todas as datas da minha história. Assim fico sabendo por eles como os acontecimentos antigos e totalmente esquecidos estão em plena atividade nos meus bastidores. E eles providenciam entre eu e aqueles dos meus que passaram para o lado dos mortos até mesmo entrevistas nunca muito longas mas suficientemente potentes e extáticas para deslocar as muralhas das separações. Fazendo isso tudo e muitas outras operações miraculosas, posso dizer que eles me escrevem também. Eu sou o livro no qual eles guardam papeizinhos.


Texto de Hélène Cixous

Tradução de Patricia Smaniotto

CIXOUS, Hélène. "Le livre que je n'écris pas". 
In CALLE-GRUBER, Mireille; GERMAIN, Marie Odile (dir.),
Genèses Généalogies Genres: 
Autour de l’oeuvre d’Hélène Cixous. 
Paris: Galilée/Bibliothèque Nationale de France, 2006.

domingo, dezembro 18, 2011

Kristall


Nicht an meinen Lippen suche deinen Mund, 
nicht vorm Tor den Fremdling,
nich im Aug die Träne.

Sieben Nächte höher wandert Rot zu Rot,
sieben Herzen tiefer pocht die Hand ans Tor,
sieben Rosen später rauscht der Brunnen.

Paul Celan


Cristal

Não procure nos meus lábios tua boca, 
não diante da porta o forasteiro, 
não no olho a lágrima.

Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho, 
sete corações abaixo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

Paul Celan

(tradução de Claudia Cavalcanti)



domingo, dezembro 11, 2011

il fallait souffler - l'âge


Il fallait souffler. Il fallait souffler ton nom. Souffler ton nom.

Dans l’oreille.

Dans les petits trous.

Dans toutes ces choses qui abîment.

Dans l’eau.

L’eau qui coule. Les bras levés. Le soufflé.

Les images du soufflé.

Ton nom. Ton nom.

Ton nom.

Non.

***



Il y a quelque chose là-bas.

Un petit trou. Dommage.

Une tonnerre.

Qui ne s’arrête pas.

Un voeu.

Vol.

Viol.

Volonté.

Sans souffle.

Bracage.

Les bras dans la cage.

L’âge.

Qui ne s’arrête pas.

Blanc âge.

Fracasse.

Un petit trou dans le nid.

Coeur âge.

(Courage.)

Je passe.


(Villefranche sur Mer, Côte d'Azur, mai 2010)

sexta-feira, dezembro 09, 2011

alguna poesia




Soneto LXIX

Tal vez no ser es ser sin que tú seas,
sin que vayas cortando el mediodía
como una flor azul, sin que camines
más tarde por la niebla y los ladrillos,
sin esa luz que llevas en la mano
que tal vez otros no verán dorada,
que tal vez nadie supo que crecía
como el origen rojo de la rosa,
sin que seas, en fin, sin que vinieras
brusca, incitante, a conocer mi vida,
ráfaga de rosal, trigo del viento,
y desde entonces soy porque tú eres,
y desde entonces eres, soy y somos,
y por amor seré, serás, seremos.

Pablo Neruda
 

Soneto LXXXII

Amor mío, al cerrar esta puerta nocturna
te pido, amor, un viaje por oscuro recinto:
cierra tus sueños, entra con tu cielo en mis ojos,
extiéndete en mi sangre como en un ancho río.
Adiós, adiós, cruel claridad que fue cayendo
en el saco de cada día del pasado,
adiós a cada rayo de reloj o naranja,
salud oh sombra, intermitente compañera!
En esta nave o agua o muerte o nueva vida,
una vez más unidos, dormidos, resurrectos,
somos el matrimonio de la noche en la sangre.
No sé quién vive o muere, quién reposa o despierta,
pero es tu corazón el que reparte
en mi pecho los dones de la aurora.

terça-feira, dezembro 06, 2011

quelque poésie


Paul Éluard, por Salvador Dalí, 1929


La parole

J'ai la beauté facile et c'est heureux.
Je glisse sur le toit des vents
Je glisse sur le toit des mers
Je suis devenue sentimentale
Je ne connais plus le conducteur
Je ne bouge plus soie sur les glaces
Je suis malade fleurs et cailloux
J'aime le plus chinois aux nues
J'aime la plus nue aux écarts d'oiseau
Je suis vieille mais ici je suis belle
Et l'ombre qui descend des fênetres profondes
Épargne chaque soir le coeur noir de mes yeux.


Nusch e Éluard, por Man Ray, anos 30


L'amoureuse

Elle est debout sur mes paupières
Et ses cheveux sont dans les miens,
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la couleur de mes yeux,
Elle s'engloutit dans mon ombre
Comme une pierre sur le ciel.

Elle a toujours les yeux ouverts
Et ne me laisse pas dormir.
Ses rêves en pleine lumière
Font s'évaporer les soleils,
Me font rire, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien à dire.

(Paul Éluard, Capitale de la douleur, Gallimard, 1926).




terça-feira, novembro 29, 2011

schneebett


 


Augen, weltblind, im Sterbegeklüft: Ich komm,
Hartwuchs im Herzen.
Ich komm.

Mondspiegel Steilwand. Hinab.
(Atemgeflecktes Geleucht. Strichweise Blut.
Wölkende Seele, noch einmal gestaltnah.
Zehnfingerschatten — verklammert.)

Augen weltblind,
Augen im Sterbegeklüft,
Augen Augen :

Das Schneebett unter uns beiden, das Schneebett.
Kristall um Kristall,
zeittief gegittert, wir fallen,
wir fallen und liegen und fallen.

Und fallen:
Wir waren. Wir sind.
Wir sind ein Fleisch mit der Nacht.
In den Gängen, den Gängen.

(Paul Celan, Sprachgitter, 1959)



LEITO DE NEVE

Olhos, cegos do mundo, no sopro amortalhado: eu venho,
Coração aço-expandido,
Eu venho.

Espelho lunar, abismo vertical. Queda.
(Gelâmpada embaçada de hálito. Sangue em estrias.
Alma finda em nuvem, figura ainda quase nítida.
Sombra contorcida de dez dedos)

Olhos, cegos do mundo,
Olhos no sopro amortalhado,
Olhos olhos:

O leito de neve sob nós dois, o leito de neve.
Camada após camada,
Cristais na trama profunda do tempo, nós caímos,
Nós caímos e deitamos e caímos.

E caímos:
Nós éramos. Nós somos.
Somos uma só carne com a noite.
Nas passagens, nas passagens.

(Tradução - meia-boca - via traduções francesa, italiana e espanhola: Patricia Smaniotto)

terça-feira, novembro 01, 2011

la francesa



  • Una mujer inteligente.
    Una mujer hermosa.
    Conocía todas las variantes, todas las posibilidades.
    Lectora de los aforismos de Duchamp y de los relatos de Defoe.
    En general con un auto control envidiable,
    Salvo cuando se deprimía y se emborrachaba,
    Algo que podía durar dos o tres días,
    Una sucesión de burdeos y valiums
    Que te ponía la carne de gallina.
    Entonces solía contarte las historias que le sucedieron
    Entre los 15 y los 18.
    Una película de sexo y de terror,
    Cuerpos desnudos y negocios en los límites de la ley,
    Una actriz vocacional y al mismo tiempo una chica con extraños rasgos de avaricia.
    La conocí cuando acababa de cumplir los 25,
    En una época tranquila.
    Supongo que tenía miedo de la vejez y de la muerte.
    La vejez para ella eran los treinta años,
    La Guerra de los Treinta Años,
    Los treinta años de Cristo cuando empezó a predicar,
    Una edad como cualquier otra, le decía mientras cenábamos
    A la luz de las velas
    Contemplando el discurrir del río más literario del planeta.
    Pero para nosotros el prestigio estaba en otra parte,
    En las bandas poseídas por la lentitud, en los gestos
    Exquisitamente lentos
    Del desarreglo nervioso,
    En las camas oscuras,
    En la multiplicación geométrica de las vitrinas vacías
    Y en el hoyo de la realidad,
    Nuestro absoluto,
    Nuestro Voltaire,
    Nuestra filosofía de dormitorio y tocador.
    Como decía, una muchacha inteligente,
    Con esa rara virtud previsora
    (Rara para nosotros, latinoamericanos)
    Que es tan común en su patria,
    En donde hasta los asesinos tienen una cartilla de ahorros
    y ella no iba a ser menos,
    Una cartilla de ahorros y una foto de Tristán Cabral,
    La nostalgia de lo no vivido, .
    Mientras aquel prestigioso río arrastraba un sol moribundo
    Y sobre sus mejillas rodaban lágrimas aparentemente gratuitas.
    No me quiero morir, susurraba mientras se corría
    En la perspicaz oscuridad del dormitorio,
    Y yo no sabía qué decir,
    En verdad no sabía qué decir,
    Salvo acariciada y sostenerla mientras se movía
    Arriba y abajo como la vida,
    Arriba y abajo como las poetas de Francia
    Inocentes y castigadas,
    Hasta que volvía al planeta Tierra
    Y de sus labios brotaban
    Pasajes de su adolescencia que de improviso llenaban nuestra habitación
    Con duplicados que lloraban en las escaleras automáticas del metro,
    Con duplicados que hacían el amor con dos tipos a la vez
    Mientras afuera caía la lluvia
    Sobre las bolsas de basura y sobre las pistolas abandonadas
    En las bolsas de basura,
    La lluvia que todo lo lava
    Menos la memoria y la razón.
    Vestidos, chaquetas de cuero, botas italianas, lencería para volverse loco,
    Para volverla loca,
    Aparecían y desaparecían en nuestra habitación fosforescente y pulsátil,
    Y trazos rápidos de otras aventuras menos íntimas
    Fulguraban en sus ojos heridos como luciérnagas.
    Un amor que no iba a durar mucho
    Pero que a la postre resultaría inolvidable.
    Eso dijo,
    Sentada junto a la ventana,
    Su rostro suspendido en el tiempo,
    Sus labios: los labios de una estatua.
    Un amor inolvidable
    Bajo la lluvia,
    Bajo ese cielo erizado de antenas en donde convivían
    Los artesonados del Siglo XVII
    Con las cagadas de palomas del Siglo XX.
    Y en medio
    Toda la inextinguible capacidad de provocar dolor,
    Invicta a través de los años,
    Invicta a través de los amores
    Inolvidables.
    Eso dijo, sí.
    Un amor inolvidable
    Y breve,
    ¿Como un huracán?,
    No, un amor breve como el suspiro de una cabeza guillotinada,
    La cabeza de un rey o un conde bretón,
    Breve como la belleza,
    La belleza absoluta,
    La que contiene toda la grandeza y la miseria del mundo
    Y que sólo es visible para quienes aman.

    (Roberto Bolaño)

sábado, outubro 21, 2006

la battaglia












Si, io sono d’accordo che i confronti di solito sono immorali. Però affermo anche, per conoscenza propria, che in alcuni casi possono essere l’unica soluzione per garantire la sopravivenza nelle situazioni estreme. Addirittura, è stato questo il caso di una storia che è successa nella mia cittadina durante l’ultima guerra.
In quell’epoca, ero solo un ragazzino felice cui piaceva fare delle lunghe camminate sulle campine, avendo il mio cane come compagno. Il paese dove io abitavo, dominato dalla bellissima serra di U., era minuscolo: soltanto due decine di famiglie vivevano lì. La maggioranza degli uomini e donne lavorava la terra intorno, fino al margine di un piccolo e traslucido fiume.
Un giorno, intanto, la nostra tranquillità quasi immobile è stata rotta con l’arrivo inaspettato di un gruppo di trenta partigiani fascisti. Loro hanno occupato il rione centrale di S., dove abitavano i pochi commercianti del luogo. Dei manifesti sono stati fissati dai partigiani sulle porte dei negozi, in cui si leggeva una sola frase: “Fuori ebbrei!”
Per gli abitanti di S., chi avevano buoni rapporti con le cinque famiglie israelite che vivevano tra loro da tanto tempo, questi manifesti sembravano assurdi. Inoltre, in un senso pratico, significavano anche un inconveniente, se i negozi fossero chiusi: dove le donne avrebbero comprato dei tessuti per fare la roba della famiglia e della casa? Dove gli uomini avrebbero comprato delle ferramente per piallare e arare la terra? Delle bevande per commemorare la raccolta?
No, non avrebbero potuto essere così ingrati verso i loro amici ebbrei, permettendo che i fascisti sfollassero le loro abitazioni e – peggiore di questo – ammazzassero i loro proprietari, come indicava la situazione politica nazionale e europea. Antonio, il figlio primogenito del mio padrino, era stato a Roma qualche mese prima e aveva sentito alcune storie terribili sulla esistenza dei campi di concentramento in Germania e altri paesi europei, a dove mandavano gli ebbrei e qualsiasi persona che i nazisti e i fascisti consideravano inconvenienti.
Due settimane dopo l’arrivo dei partigiani, niente diverso era successo: gli ebbrei continuavano a vivere nelle loro abitazioni, sebbene non potressero uscire di casa per ordine del capo dei forestieri. Costui, un uomo grande, con il viso rosso a causa della bibita, aveva fatto del unico albergo del luogo il quartiere dei fascisti. Questi passavano tutto il tempo ubriacandosi e minacciando d’uccidere gli ebbrei. Ma, alla fine di quel giorno, un partigiano moltissimo ubriaco aveva scaricato la sua arma da fuoco contro il mio cane. Mio padre, che aveva visto tutta la scena, ha deciso di reunirsi segretamente con tutti gli uomini del paese.
Siccome io ero solo un bambino, non ho potuto partecipare delle reunioni segrete, ogni volta fatta in una casa diversa e con la presenza di pochi uomini, di modo a non attirare l’attenzione dei fascisti. Altre due settimane sono passate quando io, sentendo ancora una grande mancanza del mio amato cane, sono andato a una piccola polveriera nella campina, abbandonata da molto tempo, per fare un pisolino sulla soave paglia di un vecchio pollaio senza uso.
Però, sono stato sorpreso per quello che ho scoperto sotto una grande pezza di panno: una centinaia di armi da fuoco c’erano state nascoste da qualcuno, anche delle munizioni sufficienti per una vera battaglia campale. Sono ritornato a casa mia in una corsa disordinata. Quando ci sono arrivato, mia madre pareva molto preoccupata, camminava nervosamente da un lato all’altro.
La sera, mio padre è arrivato a casa dopo la giornata di lavoro. Alla tavola da pranzo, lui pareva modificato, differente da quell’uomo vivace e sorridente che io conoscevo finora. In quel momento, il suo viso aveva un’aria grave e lui guardava mia madre insistentemente senza dire nulla. Subitamente, abbiamo sentito un rumore fuori casa. Mio padre si è alzato dal suo posto alla tavola e ha abbracciato mia madre che cominciava a piangere silenziosamente. Dopo, lui ha girato intorno la tavola per abbracciarmi anche. Senza una parola, lui è partito. Fuori casa, i rumori dei passi pesanti di mio padre e dei suoi compagni si allontanavano rapidamente. Mi pareva, in quello stesso istante, che il mio cuore sarebbe esploso di tanta paura.
Durante tutta la notte, la piazza centrale di S. è diventata un front di guerra. Gli abitanti locali sono andati all’albergo, dove hanno fatto un’esigenza ai partigiani: che partissero dalla nostra cittadina immediatamente. Davanti alla negazione della loro domanda dalla parte del capo dei forestieri, nostri uomini hanno cominciato la battaglia contro i fascisti. La mattina, la notizia è arrivata alle donne, bambini e vecchi che avevano aspettato la fine del confronto in completo silenzio nell’oscurità e nel freddo del fondo del valle di U: il paese era totalmente netto dagli invasori. La vittoria, intanto, è stata parziale: abbiamo perduto otto dei nostri combattenti (due erano ebbrei) e altri tanti sono stati feriti e anche mutilati durante la battaglia, Antonio tra loro. Ma quello che importava allora era soltanto che la vita della nostra gente e della nostra cittadina poteva essere finalmente riordinata.
(settembre 2006)