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terça-feira, fevereiro 14, 2012

metamorfose





e se eu dissesse
que tudo que havia nas minhas mãos
eram destroços.
e então veio você e me virou
e revirou pelo avesso
fez do meu corpo arena de desejos loucos
dos meus cabelos fontes, dos meus olhos noites
dos meus seios frutos, do meu ventre lago
das minhas coxas abertas pontes,
do meu sexo exposto templo.
e na manhã última dos tempos,
me cobriu de folhas mortas
para que eu fecundasse a terra
e renascesse sem dor e sem nome,
como deusa nova, para o teu deleite.

domingo, janeiro 15, 2012

el amor




En la selva amazónica, la primera mujer y el primer hombre se miraron con curiosidad. Era raro lo que tenían entre las piernas.

—¿Te han cortado?— preguntó el hombre.

—No —dijo ella—. Siempre he sido así.

Él la examinó de cerca. Se rascó la cabeza. Allí había una llaga abierta. Y dijo:

—No comas yuca, ni plátanos, ni ninguna fruta que se raje al madurar. Yo te curaré. Échate en la hamaca y descansa.

Ella obedeció. Con paciencia tragó los menjunjes de hierbas y se dejó aplicar las pomadas y los ungüentos. Tenía que apretar los dientes para no reírse, cuando él le decía: —no te preocupes.

El juego le gustaba, aunque ya empezaba a cansarse de vivir en ayunas y tendida en una hamaca. La memoria de las frutas le hacía agua la boca.

Una tarde, el hombre llegó corriendo a través de la floresta. Daba saltos de euforia y gritaba: —¡lo encontré!, ¡lo encontré!

Acababa de ver al mono curando a la mona en la copa de un árbol.

—Es así —dijo el hombre, aproximándose a la mujer.

Cuando terminó el largo abrazo, un aroma espeso, de flores y frutas, invadió el aire. De los cuerpos, que yacían juntos, se desprendían vapores y fulgores jamás vistos, y era tanta su hermosura que se morían de vergüenza los soles y los dioses.

Eduardo Galeano

Memoria del Fuego I: los nacimientos 

segunda-feira, dezembro 26, 2011

despedida





agora, finda a paixão,
você tem gosto de corte,
de morte sem razão.

teu olhar não se refugia mais
nos meus pensamentos,
nem meu amor se alimenta
dos bons momentos.

agora, tudo é deserto

sem miragens,
onde caminho rumo ao mar.

ali estarão as novas ondas,
a vida em broto,
a tempestade fresca.

ali será outra vez desperto
o coração adormecido,
o corpo desejoso de amar.

ali, haverá outras sendas,
um olhar com novas imagens,
uma paixão que a alma refresca.

o ano termina e a tua lembrança
já é questão de sorte,
conseguir resgatar um retalho
do que foi vivido.
 
porque o amor, meu querido,
nem sempre dança
conforme a música.
às vezes, tudo que resta
é apenas silêncio.

sábado, dezembro 17, 2011

epitáfio



A morte de Ofélia, J. E. Millais



Tenacidade é uma palavra que a descreve bem.
Ela raramente desistia enquanto houvesse a menor esperança.

Mas, após o mais recente golpe de crueldade,
o último de vários desferidos em pouco tempo,
ela finalmente desistiu.

E quando ela desistia, era para sempre.
Era para nunca mais.

Assim, o amor morreu.
Morreu vítima do sadismo de um homem
que não merecia o amor que lhe era ofertado.

Porque o amor definha com a crueldade
dos amantes inseguros e rancorosos.

O amor morreu.
Definitivamente.

Rest in peace.


sexta-feira, dezembro 09, 2011

caixa de Pandora


 The wedding candles, de Marc Chagall



 Uma vez, menina ainda, disseram a ela que o amor era a caixa de Pandora. Ela não sabia o que era isso, só foi descobrir mais tarde, quando os livros de mitologia caíram em suas mãos. Os livros, porém, não ensinam nada sobre o amor. Foi preciso a rosa despetalada do primeiro beijo para que ela entendesse que, na paixão e no amor, veneno e mel se misturam na escuridão da pequena caixa embrulhada para presente.

Na vida dela, fez-se uma sucessão de pequenas caixas bonitas por fora e escuras por dentro. Ela as abriu todas. Em algumas encontrou brinquedos de armar. Em outras, risos e lágrimas. Em outras ainda, viagens e animais selvagens. Em todas, encontrou, lá no fundo, um brilho mágico chamado esperança. Infelizmente, a cada vez, mais dia menos dia, o brilho ia esmorecendo, ficando cada vez menor até se extinguir por completo. 

Recentemente, já adulta, uma nova caixa embrulhada para presente chegou às mãos dela. Ela abriu cuidadosamente a pequena caixa ovalada e descobriu ali o amor mais lindo de todos. Ele era cheio de defeitos, tanto os dela quanto os dele, mas era um brinquedo que sempre mudava de desafio e de enigma, além de vir recheado com um mar de ternura pronta para aquecer. 

Lá no fundo da caixa, ela achou – é claro – o pequeno brilho mágico. Desta vez, resolveu fazer diferente: em vez de deixá-lo lá, à mercê dos relâmpagos e tempestades, ela abriu o próprio peito e o escondeu lá dentro, protegido do olho da morte. Quando a tormenta chegou e levou para longe o amor mais lindo de todos, ela ainda tinha a esperança.

Não importava se este amor era perfeito ou imperfeito, se vinha com obsessões, hábitos enferrujados, medos incompreensíveis, truques de segunda mão ou desejos infantis. Ele era o mais lindo de todos, justamente porque era o mais intenso e o mais complexo. E porque havia paixão, apesar do relógio adiantado no tempo. 

Como uma noiva que espera pacientemente o anúncio do amor resgatado, como Penélope tecendo infindamente seu amor por Ulisses, ela esperava seu amado voltar do outro lado da tempestade. Ela tinha a esperança no peito – e, como aprendeu com Pandora, jamais deixaria de esperar o milagre.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

luzes acesas




The three candles, de Marc Chagall




Quando ele apareceu em meio à celebração de Rosh Hashaná, não entraram pássaros pela janela, nem coelhos saíram pela cartola.

Ele trazia nas mãos uma garrafa de vinho tinto argentino e um laço invisível – seu olhar brilhante e totalmente focado nela – que se enrolou na mulher feito serpente.

Ela tentou escapar do laço enquanto mergulhava seu coração no vinho, sem lembrar que assim ele se embriaga. Depois, usou outra estratégia: olhar para o lado e sorrir faceira para o homem jovem, bonito e moreno que, desde o início da festa, a seduzia do jeito que os meninos ainda inocentes fazem.

Mas não teve jeito. Também não teve – antes, durante ou depois – revelação, premonição, vidência, espíritos que retornam do mundo dos mortos para dizer que, um dia, um desconhecido irá chegar com uma jóia nas mãos e um cartaz dizendo: “... e viveram felizes para sempre.”

Não, não foi assim a história deles: foi mais simples, mais verdadeira e sem qualquer realismo mágico. Foi apenas a história de um homem que encontrou uma mulher e que, na pausa para o cigarro na sacada da casa de um amigo, lhe disse que nunca perdesse aquele sorriso, que agora ela trazia aberto e confiante. 

Ela se aproximou dele, ele a abraçou e, depois de alguns minutos de silêncio, sentindo o calor reconfortante um do outro através das roupas naquela noite fresca, ele a beijou muito, muito delicadamente.

Naquele instante, ela esqueceu todos os anos de silêncio. Esqueceu tudo que foi vivido e que não foi vivido durante a entressafra entre o último amor e este. Ela simplesmente acreditou nele, no calor do corpo dele, no aconchego do abraço dele, no gosto bom do beijo dele, no olhar lindo que nunca se apagava, no laço invisível que a envolvia feito serpente, mas não lhe metia medo.

Naquele instante, ela quis estar com ele a madrugada inteira. Flanaram de bar em bar, em uma conversa que não tinha fim, um jorro de confidências e histórias de duas vidas inteiras, duas longas vidas de um homem e uma mulher maduros, apesar das estrelas novas que carregavam nas almas e nas mãos.

O dia já ia nascer nublado e eles se esgueiraram pela porta do primeiro hotel barato (coincidentemente, aquele mesmo em frente à antiga sinagoga), para que a noite não acabasse e para que o desejo – uma lua crescente no ventre – não fugisse com os ruídos triviais e desarmônicos da manhã de domingo.

No quarto pequeno e escuro, os corpos se despiram. Não só das roupas, mas também da desesperança que até então lhes servia a mesa e dormia ao lado deles na cama. Eles se despiram e a nudez deles era mais bela e profunda porque carregava nela a história de cada um deles. Histórias longas de lutas, amores, dores, alegrias, filhos, livros, viagens, exílios em países distantes, exílios aqui mesmo onde estamos.

E, assim, despidos de todo enfeite inútil, de toda alegoria supérflua, de toda fantasia enganosa, o corpo dela e o corpo dele se enrolaram feito serpentes. Ela sentiu a pele dele nua contra a sua e a maciez que nela encontrou lhe vestiu a alma como uma luva delicada e se transformou em eterno céu abobadado. 

Ele sentiu, sob os cabelos longos e ruivos, na curva da nuca, o cheiro dela – e se impregnou desse perfume único e intransferível até que nunca mais pudesse lavá-lo enquanto existisse, eternamente fadado a carregar consigo a memória dela em todos os seus sentidos.

Então, eles se amaram de todas as formas, sabidas e não sabidas, meninas e adultas, frágeis e loucas, secretas e extravagantes, expulsando do quarto todos os demônios, santos, mitos e lendas. Não precisavam deles, não precisavam acreditar nas falsas promessas deles, nem em contos de fadas. 

Eles se bastavam, eram o brinquedo e a brincadeira um do outro, esconde-esconde, pega-pega, jogo de amarelinha, arcanos do tarô. Jardim das delícias ali mesmo, ao alcance das bocas e das mãos. E gozo, repetidas vezes.

Finalmente, dormiram perfeitamente encaixados um no outro: almas gêmeas siamesas separadas ao nascer, agora reencontradas.

Nas quatro semanas e meia de amor que se seguiram, foram inseparáveis. Planos para o futuro, juras de amor, riso caloroso e cúmplice, conversas infinitas, olhares amorosos de um lado a outro da mesa, mãos dadas na rua. Namorados. Namorados enamorados.

Não era preciso inventar um reino distante cheio de esplendor: o encanto estava ali mesmo, naquela cumplicidade diária dos telefonemas, das mensagens trocadas, das saídas noturnas, das conversas à mesa, do cuidado com o bem-estar um do outro, do apoio mútuo e das pequenas gentilezas. 

Tudo isso, inacreditavelmente, vinha carregado das marcas do misterioso e do surpreendente, absolutamente humanos. Uma coisa rara - uma jóia preciosa e impalpável - chamada intimidade.

Mas, um dia, tudo acabou. Ele foi escalar castelos de fumaça, caçar miragens chilenas, perseguir coelhos mágicos e pássaros distantes. Ela foi se vestir de luz prateada, pendurar estrelas nas treliças e escrever um diário invisível, em que cada letra desaparecia ao ser traçada.

Foi a incompreensível separação dos amantes. Tudo acabou. Mas o amor, não – este continua intacto e à espera em algum lugar. Quem sabe ele encontre, milagrosamente, o caminho para casa quando forem acesas as luzes de Hanucá.

(26/11/2011)

segunda-feira, dezembro 05, 2011

nuvens escuras


 William Turner, Nuvens escuras, aquarela, 1822


E eu te abraço por sobre as nuvens escuras na esperança de que a tempestade passe sem te levar embora. Porque cada relâmpago que surge ao meu redor me assusta e tenho medo de largar tua mão pra nunca mais. Queria ter ouvido o bater do coração no teu peito a cada vez que te tive nos meus braços. Queria ter silenciado todas as vezes que a tempestade se anunciou como perigo. Queria ter apenas te ouvido e te recebido em mim como a amante que quase não fui.

E eu te abraço por sobre as nuvens na esperança de que você me olhe mais uma vez e se emocione como na primeira noite, quando tua boca cantou sem palavras em meu ouvido e tuas mãos me tomaram inteira, me exilando dentro da tua alma. Queria que a viagem não tivesse sido tão curta, embora tenhamos dado a volta ao mundo para nos encontrarmos um diante do outro, despidos de temores.

Agora, por sobre as nuvens escuras, seguro tuas mãos para que não nos percamos um do outro. Nômades de nós mesmos, ainda assim nos encontramos no silêncio que se fez após o fim. Te vejo na manhã que nasce. Te respiro em cada lembrança. Te encontro em cada desejo que ainda não foi  destruído e que, teimosamente, resiste à escuridão, aos relâmpagos, à tempestade que se instalaram entre tua alma e a minha, entre teu corpo e o meu.

Te busco e me busca por trás das vidraças do mundo. Eu sei que você está aí do outro lado, ouvindo o que eu não digo. E você sabe que eu, aqui, também te ouço no silêncio. E como sei que você está aí, em algum lugar da tempestade, eu estendo minha mão até alcançar a tua e sentir o calor que dela emana. Eu te abraço por sobre as nuvens escuras, meu amor, na esperança de que você esteja comigo quando a tempestade passar.

domingo, dezembro 04, 2011

o retrato



 Magritte, The lovers

Para Jai, no dia de seu aniversário


Era domingo. O dia esvaziava como sonho. O céu abria seus poros azuis manchados de dourado. Diante da janela, a mulher de olhos longínquos trazia ancorado no peito nu o retrato.

O retrato sem moldura dardejava no tempo, fazendo curvas para o adeus. Do fundo do retrato, escapavam dois olhos amados, olhos de aventureiro que um dia estará morto. Ela, a mulher de olhos longínquos e peito nu, acariciava os olhos celestes com seu próprio olhar de maresia. Na mistura dos azuis, escorregava o olhar acetinado de folhas frescas que ela lançava ao rosto resoluto.

E, então, ela se lançou na cama com cheiro de fadas e alfazema, espalhando a cabeleira ruiva sobre os travesseiros e sobre o quarto inteiro. Com o retrato colado no peito, ela sonhava sonhos de outro tempo, com os olhos abertos e as pernas também.

As mãos de feiticeira deixavam o retrato e acendiam a fogueira, com a lembrança do corpo branco e morno do estrangeiro. Pequena sob o peso dele, do estrangeiro de língua estranha e quente, ela se contorcia em ondas delirantes. Ele, o estrangeiro, respirava na curva do pescoço dela, um sopro sanguíneo se debatendo nas veias abertas desse amor fugaz, até explodir em espasmos brancos no ventre dela.

Com as pernas enganchadas no corpo do amado estranho, estrangeiro, ela se debatia entre a entrega e a fuga. Menina de si mesma, pressentia a partida do homem que se tornara amigo, amante, pai, filho, tudo ao mesmo tempo porque precisava ser tudo para ser inteiro.

Mas, antes de partir, o estrangeiro de olhos celestes lhe contou todas as histórias já vividas e inventou outras mais, apenas para vê-la sorrir com a alma ardente. E ardente também ele a queria quando mais uma vez brincou com as mãos grandes entre as pernas dela, só para ouvi-la gemendo em seu silêncio absoluto.

Eles brincaram outras vezes assim, trocaram confidências de vidas passadas, se embebedaram de vodka muito longe da Rússia, mas sem querer trouxeram na bagagem a foice e o martelo. Uma noite, o vinho transbordou das veias, das bocas e dos olhos e pintou o quarto todo de vermelho sangue. Ela se deitou em meio a todos os pedaços do seu amor destroçado e, lentamente, dormiu o sono triste dos apaixonados.

Ao acordar, só havia o retrato do estrangeiro de olhar celeste. Ela o talhou no peito como tatuagem, para nunca mais se esquecer da paixão. Ela foi até a janela, os seios nus contra a vidraça. No céu, os poros azuis manchados de dourado. O silêncio de um dia esvaziado como um sonho. Era domingo.

sábado, novembro 26, 2011

escuta clandestina



Tenho algo pra te contar, uma coisa inusitada que  aconteceu comigo hoje, agorinha mesmo.

Estava trabalhando na tradução que tenho que enviar para a França nesta madrugada. No quarto, o celular tocou, berrando desesperadamente. Era um amigo meu, cuja lembrança me acompanhou o dia inteiro insidiosamente, invadindo meus pensamentos sem ser chamado, feito formiguinhas visitadeiras.

Quando vi o nome no visor do celular, sorri aquele sorriso de segredo e de magia que nasce quando percebemos que o Universo parece estar conspirando a favor de algo que nem sabemos o que é ainda. Enfim, para resumir, o telefonema desse amigo parecia um caso de telepatia explícita.

Atendo e digo alô. Para meu espanto, ele não responde. Tento de novo, mas ele não fala comigo, fala com outra pessoa (na rua?). Espero, talvez ele esteja pegando o troco de alguma coisa e já vai falar comigo.

Mas não: percebo que ele não sabe que me ligou literalmente sem querer. Não resisto a ser écouteuse de sua trajetória pela rua: é como se eu estivesse no bolso de Leopold Bloom na velha Dublin.

Meu coração bate forte no peito ao pensar que ele vai flagrar a minha indiscrição a qualquer momento. Mas ainda assim não resisto: acompanho seus passos na rua, ouço quando alguém pergunta sobre um hotel (será ele quem o procura?), depois escuto sua voz dizendo, daquele jeito lindo e apaixonado dele, que "só há inverno e verão; estamos no quinto mês do inverno". Um outro homem, com sotaque nordestino, retruca: "fazia 36 graus quando eu saí de lá".

Ele volta a caminhar. Depois parece abrir uma porta e, então, escuto barulho de água: louça sendo lavada? Ele resmunga alguma coisa para si mesmo e eu aqui na minha casa sorrio um sorriso de Monalisa, deliciada por estar com ele sem que ele o pressinta.

Mas, de repente, me dou conta que em algum momento ele vai perceber. Vai tirar o celular do bolso e ver que me chamou sem saber - e que eu fiquei à escuta dos seus movimentos. Fico apavorada, não quero ser surpreendida, mas ainda resisto a desligar.

Então, meu filho aparece e quer saber por que estou com este sorriso bobo na cara. Largo o celular aberto na cama e saio do quarto dizendo que não é nada. Volto quando me dou conta de que ele vai pegar o celular. Dito e feito: "quem é esse cara?" Arranco o celular das mãos dele e me escondo no escritório.

Ouço com a respiração suspensa, para saber se o meu amigo se deu conta da minha escuta clandestina. Não, ainda não. Então, me sinto desconfortável e faço o gesto final, encerrando o passeio que fizemos juntos sem que ele soubesse. Olho o visor: durou 18 minutos o nosso passeio, eu no bolso dele. 18 como o dia do seu aniversário.
 
(03/10/2011)

segunda-feira, outubro 31, 2011

paixão tardia


 O beijo - Gustav Klimt

Leio teus textos sempre com uma dor infinita. A mesma coisa acontece quando me narra outras histórias de tua vida: a cada história, um estilhaço de vidro me atravessa o peito.

A dor é fruto da ausência. Da minha ausência na tua vida durante todos estes anos. Tivesse te conhecido em 1982, no ápice dos meus 18 anos, teria seguido com você por estes 30 anos anteriores ao nosso encontro atual?

Não sinto ciúmes do teu passado ou das tuas mulheres (bem, talvez um pouco, por terem estado lá quando eu não estava). Sinto sim um ciúme avassalador do tempo que me foi roubado junto a você.

Porque, hoje, quando te olho, tenho medo da morte que te espreita, tenho medo de te perder para a morte. E tenho uma saudade insuportável do filho que nunca terei com você.

Quando olho fotos tuas, todas mais ou menos recentes, com exceção de uma, fico tentando desenhar na minha mente o homem jovem que você foi, pressentindo a beleza máscula do homem alto, magro, de olhos claros e cabelos escuros, rosto bem traçado, que eu não conheci e jamais conhecerei.

Sinto ciúmes de todas as mãos e bocas e pernas e sexos e peles que te roçaram, te tocaram, te beijaram, te amaram, te aqueceram na juventude. Tenho um ciúme avassalador do que não tive e nunca terei.

Ainda assim, hoje, quando te olho e te ouço, tua voz é grave e quente e me excita. Teu olhar azul, lindo, límpido, vivo, me atravessa como um estilhaço, desta vez de prazer. Teu sorriso malicioso te ilumina com a beleza da juventude e com a sedução da tua masculinidade intocada.

Aí te desejo tanto tanto tanto como se você ainda tivesse 30 anos - e como se eu também fosse uma menina.