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terça-feira, janeiro 31, 2012

liberdade


Boris Vian



Sobre o umbral da tua morada
Sobre o assoalho reluzente
Sobre a caixa do piano
Escrevo teu nome

Sobre o primeiro degrau
Sobre o segundo e os outros
Sobre a porta do teu lar
Escrevo teu nome

Sobre as paredes do quarto
Sobre o papel viperino
Sobre a lareira de cinzas
Escrevo teu nome

Sobre a almofada os lençóis
Sobre esse colchão de lã
Sobre o travesseiro gasto
Escrevo teu nome

Sobre o rosto concentrado
Sobre as narinas abertas
Sobre os dois seios agudos
Escrevo teu nome

Sobre teu ventre de escudo
Sobre tuas coxas abertas
Teu mistério corrediço
Escrevo teu nome

Eu vim no meio da noite
Vim rabiscar tudo isso
Vim em busca de teu nome
Escrevê-lo
Com esperma.

Boris Vian, Escritos Pornográficos,
tradução de Heloísa Jahn

quinta-feira, janeiro 12, 2012

dois poemas para Thomas





acho que estamos loucos
e também não quero pouco
ardo num desmaio tonto
num desejo que te espera
apesar da primavera
das sombras e das feras


(1990)



quero bulir
na tua vida
abrir logo
tua camisa
rasgar a carne
que me convida
libidinosa
silente e
drástica.


(1990)


quarta-feira, janeiro 11, 2012

o amor distante


foto de Petr Lovigin


para Patricia


viver agora não é apenas o passar dos dias
pois tua voz e teu olhar transformam
todos os segundos em feriados

dias longos de repartir o bolo, abrir o vinho,
mesmo que tua boca ainda sorria
no eco dessa infinita distância

noites longas de sonhar o sonho
de finalmente te trazer para perto
onde teu gosto escorra doce

noites longas de rir o riso caloroso,
de falar contigo o dito e o não dito
e me silenciar no teu olhar de loba

e assim voltam os dias de inverno,
em que persigo tua sombra ausente,
em que me deito com teu perfume
e acordo no abraço de tanto amor.

Thomas Savéry

(tradução do francês de Patricia Smaniotto)

terça-feira, janeiro 10, 2012

após um tempo




Após um tempo,
Aprendemos a diferença subtil
Entre segurar uma mão
E acorrentar uma alma,
E aprendemos
Que o amor não significa deitar-se
E uma companhia não significa segurança
E começamos a aprender...
Que os beijos não são contratos
E os presentes não são promessas
E começamos a aceitar as derrotas
De cabeça levantada e os olhos abertos
Aprendemos a construir
Todos os seus caminhos de hoje,
Porque a terra amanhã
É demasiado incerta para planos...
E os futuros têm uma forma de ficarem
Pela metade.
E depois de um tempo
Aprendemos que se for demasiado,
Até um calorzinho do sol queima.
Assim plantamos nosso próprio jardim
E decoramos nossa própria alma,
Em vez de esperarmos que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
Que somos realmente fortes,
Que valemos realmente a pena,
E aprendemos e aprendemos...
E em cada dia aprendemos.

Jorge Luis Borges

domingo, janeiro 08, 2012

poesiatoda IV


sigo teu sorriso
esse sorriso de início
esse jeito de delírio
teu olhar, colírio
no meu decote raso.
(1990)

Estudo de nu, Jean Ingres, 1801

meu olhar se transfigura
com o teu deleite
intenso e noturno.
abro meu corpo
e meu sexo exposto
é flor carmesim,
ainda aquecida
pelo sol
deste lado da Terra.
(1990)


Nu deitado, Modigliani, 1900

sábado, janeiro 07, 2012

poesiatoda III


a bela luz
da tua pele
me dá um branco:
esqueço tudo
e estremeço
no escuro.
(1990)


Male Nude (Bill Harris), George Platt Lynes, 1945


a noite traz uma melancolia
que entretenho e ponho
nas arestas do teu peito.
(1990)

sexta-feira, janeiro 06, 2012

keep trying

Cactus, by Sharon Weiser


you give yourself to someone this way -
full of midnight light and the gold dust of the road
but he finds you other, amidst the ruins
that could be Egypt, Greece,
could be Bikini Atoll
after they duped the natives

you have given him the wheel
and slid over to the side,
the humming motor still running on last chance Texaco,
and summer burning all around, turning the red cactus flowers
into dried brown fingers,
and he promises to take the curves gently,
to not turn on the radio,
to drive just till the top of the mountain,
to let you take over -
just where the clouds are gathering,
just where the lurking storm has shifted with summer fickle -
as if for the first time,
as if for the last try

miriam adelman

quinta-feira, janeiro 05, 2012

vera tarde


foto de Katerina Bodrunova

vera tarde folha sépia
do plátano
a bebida loira
o sorriso infame
do outro lado da mesa

e essa vontade
de virar pássaro
um leão, subir na mesa
e te engolir como num circo
estarrecer cada pessoa
com a asa encrespada do dragão
com a magia de uma bruxa

vontade doce
de que teu tigre
surja no teu corpo
e tire esse ar de desvario
e a claridade da tua pele
esses dourados e negros
e mistérios

vontade de que teu bicho
se aposse desse espaço
e morda o sol perene lá no alto
crave as garras nesses rostos
únicos e duros que nos olham
e ignoram nas águas mornas
do passeio público
em pleno meio-dia
de um sábado inexorável

vontade mesmo
de que no fim da tarde
minha mágica se dilua
reste apenas o teu desejo
e o meu desejo, intimidade
o gosto da tua boca
e o teu olhar perdido.

(1985)

quarta-feira, janeiro 04, 2012

vertigem




ah, que vertigem
que me dá
teu olhar de febre
teu tigre
me provoca a libido
vertigo
hitchcockianamente


(1985)

domingo, janeiro 01, 2012

heathcliffiana





teu olho meu olho
mesmo horizonte
naquele monte

de ventos uivantes. 


(1990)



sexta-feira, dezembro 30, 2011

desenlace


Vínculos, Dario Ortiz (Colômbia)


Amor é drama quando há ruptura
lenço de sangue na viagem súbita
lágrima de sal moído em terracota
chá de fel como exemplo de amargura

Vou partir, pastora, já estou pronto
saio da roda clara do teu manto
perco novamente o que me toca
nesta estação eterna de martírio

Não é justo atribuirmos ao romance
o que pertence ao desenlace
entre o sonho louco e o expediente

Nascemos com vocação do sentimento
e exercemos sem medir retorno
o que nos faz melhor e escapa sempre

Nei Duclós


saltos em cavalos selvagens




Há três grandes cavalos:
um a calejar-me as mãos,
outro triste e revolvido;
um a forçar-me a língua,
outro a vomitar ciência
e ainda um outro rijo.

Górgonas nascidas em boa hora,
um cavalo para um olho (e outro que não chora)
torturam o que sobra de meu ocidente.
Presos no quarto de Jade,
o mais selvagem me engolirá a soberba
e, diminuída, seremos duas cabeças.

Camila Ribeiro

quarta-feira, dezembro 28, 2011

o amor quer abraçar




O amor quer abraçar e não pode.

A multidão em volta,

com seus olhos cediços,

põe caco de vidro no muro

para o amor desistir.

O amor usa o correio,

o correio trapaceia,

a carta não chega,

o amor fica sem saber se é ou não é.

O amor pega o cavalo,

desembarca do trem,

chega na porta cansado

de tanto caminhar a pé.

Fala a palavra açucena,

pede água, bebe café,

dorme na sua presença,

chupa bala de hortelã.

Tudo manha, truque, engenho:

é descuidar, o amor te pega,

te come, te molha todo.

Mas água o amor não é.


Adélia Prado

el corazón




Cada vez que se escribe un poema
tienes que hacerte un corazón distinto,
un corazón total,
continuo, descendiente,
quizás un poco extraño,
tan extraño que sirve solamente
para nacer de nuevo.

Luis Rosales

segunda-feira, dezembro 26, 2011

despedida





agora, finda a paixão,
você tem gosto de corte,
de morte sem razão.

teu olhar não se refugia mais
nos meus pensamentos,
nem meu amor se alimenta
dos bons momentos.

agora, tudo é deserto

sem miragens,
onde caminho rumo ao mar.

ali estarão as novas ondas,
a vida em broto,
a tempestade fresca.

ali será outra vez desperto
o coração adormecido,
o corpo desejoso de amar.

ali, haverá outras sendas,
um olhar com novas imagens,
uma paixão que a alma refresca.

o ano termina e a tua lembrança
já é questão de sorte,
conseguir resgatar um retalho
do que foi vivido.
 
porque o amor, meu querido,
nem sempre dança
conforme a música.
às vezes, tudo que resta
é apenas silêncio.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

o eterno retorno


me lembro bem, eu já fui um deus
daqueles que moviam mundos e fundos
bastava rir para ver tudo florir
mas aqueles que eu chamava de meus
aqueles que deveriam ter fé
foram virando as costas
e, sem mais nem menos, me largaram a pé
sem perguntas e sem respostas

eu sabia que a sensação de estar só
como tudo nesse mundo
um belo dia, retornaria ao pó
e assim me tornei um vagabundo
um inútil pária das estrelas
um monumento ao nada que sirva
um sinônimo de ovelha
não de pastor ou cristo ou shiva

o mundo era meu, estava escrito,
no entanto, não tomei posse
e nem deixei o bem dito pelo maldito
mas se a luz é sombra até que se mostre
encontrei no breu o farol da volta
a poesia me pegou na veia
e, com mil poetas como escolta,
voltei à vida com a caneta cheia!

antonio thadeu wojciechowski

o próprio...

domingo, dezembro 18, 2011

Kristall


Nicht an meinen Lippen suche deinen Mund, 
nicht vorm Tor den Fremdling,
nich im Aug die Träne.

Sieben Nächte höher wandert Rot zu Rot,
sieben Herzen tiefer pocht die Hand ans Tor,
sieben Rosen später rauscht der Brunnen.

Paul Celan


Cristal

Não procure nos meus lábios tua boca, 
não diante da porta o forasteiro, 
não no olho a lágrima.

Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho, 
sete corações abaixo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

Paul Celan

(tradução de Claudia Cavalcanti)



terça-feira, dezembro 13, 2011

poesiatoda II





foto de Man Ray, 1931


 

tua pele nua
se movimenta imperceptível
como numa escultura
teus olhos lassos
emergem breves no espaço
como partituras
teus traços circunscrevem
escuros e claros
que desfaço
como travos do atraso

então distraio o passo
e doce faço
com os dedos laços
com os beijos favos
com os olhos raios (x)
e gravo num retrato
imenso e baço
o close fugaz e frágil
de um abraço imaginário

(1992)

poesiatoda I



Lee Miller, por Man Ray, 1929

era uma fêmea
efêmera
extemporânea
mãos de
esconde-esconde
sorriso
de vagueza
etérea.
como todas,
fênix
e quimera.

(1990)


Floating, Lee Miller, por Man Ray

 
meu intento
é te levar
pra dentro
te tragar
no vento
te travar
no peito
te manter
atento
até o fim.

(1990)