sexta-feira, dezembro 09, 2011

caixa de Pandora


 The wedding candles, de Marc Chagall



 Uma vez, menina ainda, disseram a ela que o amor era a caixa de Pandora. Ela não sabia o que era isso, só foi descobrir mais tarde, quando os livros de mitologia caíram em suas mãos. Os livros, porém, não ensinam nada sobre o amor. Foi preciso a rosa despetalada do primeiro beijo para que ela entendesse que, na paixão e no amor, veneno e mel se misturam na escuridão da pequena caixa embrulhada para presente.

Na vida dela, fez-se uma sucessão de pequenas caixas bonitas por fora e escuras por dentro. Ela as abriu todas. Em algumas encontrou brinquedos de armar. Em outras, risos e lágrimas. Em outras ainda, viagens e animais selvagens. Em todas, encontrou, lá no fundo, um brilho mágico chamado esperança. Infelizmente, a cada vez, mais dia menos dia, o brilho ia esmorecendo, ficando cada vez menor até se extinguir por completo. 

Recentemente, já adulta, uma nova caixa embrulhada para presente chegou às mãos dela. Ela abriu cuidadosamente a pequena caixa ovalada e descobriu ali o amor mais lindo de todos. Ele era cheio de defeitos, tanto os dela quanto os dele, mas era um brinquedo que sempre mudava de desafio e de enigma, além de vir recheado com um mar de ternura pronta para aquecer. 

Lá no fundo da caixa, ela achou – é claro – o pequeno brilho mágico. Desta vez, resolveu fazer diferente: em vez de deixá-lo lá, à mercê dos relâmpagos e tempestades, ela abriu o próprio peito e o escondeu lá dentro, protegido do olho da morte. Quando a tormenta chegou e levou para longe o amor mais lindo de todos, ela ainda tinha a esperança.

Não importava se este amor era perfeito ou imperfeito, se vinha com obsessões, hábitos enferrujados, medos incompreensíveis, truques de segunda mão ou desejos infantis. Ele era o mais lindo de todos, justamente porque era o mais intenso e o mais complexo. E porque havia paixão, apesar do relógio adiantado no tempo. 

Como uma noiva que espera pacientemente o anúncio do amor resgatado, como Penélope tecendo infindamente seu amor por Ulisses, ela esperava seu amado voltar do outro lado da tempestade. Ela tinha a esperança no peito – e, como aprendeu com Pandora, jamais deixaria de esperar o milagre.

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